Há muitos anos que leio a revista "Boa Estrela" por manter uma abordagem informativa mas essencial aos variados temas do sobrenatural e do oculto, abrindo assim a porta para o leitor interessado investigar à posteriori se assim o entender. Em Maio de 2007, a edição da "Boa Estrela" trazia quatro páginas dedicadas à cultura gótica. Até aqui nada de mais. Também podiam falar da Guarda Republicana ou do lince da Malcata se o fizessem bem. Aliás, uma vez a "Boa Estrela" fê-lo como deve ser e eu até elogiei aqui. Na altura não tinha scanner mas suspeito que ainda guardo algures o artigo, em papel. (Se houver interesse também posso ir buscá-lo, mesmo desafiando o terrível exército de ácaros que o vigiam ferozmente.) Em Maio do ano passado, contudo, a revista "Boa Estrela" produziu uma das maiores bostas já escritas sobre os góticos e a sua sub-cultura, não só copiando em estilo e prosa sites brasileiros encontrados por essa internet fora, como também, dentro do próprio artigo, o que é jornalisticamente gravíssimo, contradizendo numa caixa o que é dito na outra, o que só me leva a pensar que o/a editor/a estava a dormir e a precisar de encher chouriços. Mas o pior, mesmo o pior!, que me faz voltar a isto tanto tempo depois porque só agora tive disponibilidade e paciência, é que apresenta uma imagem distorcida e chocante do movimento gótico. Imagino uma pessoa normal a ler estes disparates: um pai, uma mãe, alguém que nunca conheceu um gótico, e a ideia repulsiva que tira do artigo de que os góticos são uma seita religiosa de hábitos ritualísticos de pôr os cabelos em pé, como beber sangue e passear pelos cemitérios à noite. É por isso que este artigo vai ser devidamente zurzido, como merece toda e qualquer peça que se apresente como jornalística e fale do que desconhece. Lamento que a qualidade da revista "Boa Estrela" tenha ido pela escada abaixo a rebolar nos últimos anos, nomeadamente começando artigos como: "Os centauros eram animais que viviam na Grécia Antiga" (e outras pérolas do género). Que os centauros não se manifestem é lá com eles, mas quem não se sente não é filho de boa gente. Vamos então, primeiro, à parte séria, e passemos depois ao gozo, que no fim até se arranca daqui umas gargalhadas.
Favor ver as páginas scanadas em baixo, na íntegra. (Só foi retirada publicidade a uma vidente cá do sítio que será reposta assim que a senhora nos pagar o anúncio.) O artigo começa mal do princípio, colocado como está na secção "CRENÇAS E RELIGIÕES". E diz mesmo, logo a abrir: "A religião gótica constitui uma outra cultura, estilo e maneira de pensar." Religião quê?!... E continua mais à frente: "Os góticos normalmente têm discussões espirituosas sobre a evolução da religião e o seu lugar na sociedade moderna. Ser gótico é, afinal, uma outra forma de tribalismo (...) Como a maioria dos grupos religiosos, os góticos tentam sempre manter de fora quem não adere à sua forma de estar na vida."
Para descansar pais, avós, tios e até góticos confusos:
O MOVIMENTO GÓTICO NÃO É UMA RELIGIÃO!
Definição de religão, para quem não sabe, como se pode ler no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora:
religião, s.f. culto prestado à divindade; conjunto de preceitos e práticas pelas quais se comunica com um ser ou seres superiores; doutrina ou crença religiosa; reverência ou respeito às coisas sagradas; temor de Deus;...
Cultura gótica, sim. Religião gótica, nunca. Religião implica a existência de um deus, ou deuses, e, que eu saiba, a única coisa que todos os góticos adoram é a música. Góticos e outros melómanos como os malucos do jazz ou os eruditos da música clássica. A sub-cultura gótica é tão tribalista como qualquer outra sub-cultura urbana. E não, os góticos não andam por aí a cortar o pescoço a "quem não adere à sua forma de estar na vida". Era só o que faltava, além de religiosos também sermos fundamentalistas.
Termina aqui a parte séria. Quem quiser rir mais pode ir ler o resto.



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