24.2.07

QNTAL V – SILVER SWAN :: MYSTERIUM – SAPIENTIA

“O death, come close mine eyes;
More geese than swans now live,
More fools than wise.”

Saiu em Outubro de 2006 o mais recente trabalho da banda germânica QNTAL sob denominação QNTAL V – SILVER SWAN, colocando o multi-facetado Michael Popp, a divina Syrah e o sofisticado Fil em reinos herméticos onde Brian Froud – soberano do reino dos invisíveis – surge como anfitrião.
Conhecendo a carreira dos QNTAL desde o início, bem como, as participações de seus membros em projectos como os ESTAMPIE, HELIUM VOLA ou até mesmo, os DEINE LAKAIEN, não se pode dizer que este disco seja inesperado. Não é.
À primeira audição é fácil concluir que os QNTAL abandonaram, para já, terrenos, digamos, mais obviamente industriais, para dar lugar a uma sonoridade mais polida, erudita, medieval. Claro que as texturas industriais continuam a ser a arquitectura musical de base onde os desvarios orgânicos vão sendo desenvolvidos. No entanto, os primeiros tornam-se menos óbvios em detrimento dos segundos. Tal caminho começa a ser traçado em QNTAL III – TRISTAN UND ISOLD, é consolidado em QNTAL IV – OZYMANDIAS, e vê-se agora consagrado. Provavelmente a temática hermética, a este respeito, não seja inocente… não possuirá todo o ferro o potencial do ouro? E aqui o que aparece é tendencialmente o ouro…
A edição especial vem numa caixa tríptica de DVD, com o álbum propriamente dito, um segundo CD com alguns bónus caracterizados por faixas mixadas, um single e um inédito, e ainda o video-clip da faixa “Von Den Elben”, e um booklet soberbamente ilustrado por Brian Froud. Ao abrir a caixinha, sobre representações douradas e a imagem de Syrah, saltam aos olhos duas palavras “Mysterium” e “Sapientia”. Neste momento, resta mais do primeiro do que da segunda! “Vamos lá ver onde isto vai dar!”

A primeira faixa “Monsieur’s Departure” dá o mote ao álbum, iniciando com acordes melancólicos espaçados, num movimento quase hipnótico – fazendo uso de motivos orientalizados e circulares -, onde se exploram opostos, colocando a nu a magia do Ser que se é. A intensidade é progressiva, tal como o conhecimento de si nas suas três dimensões. Tal início permite a abertura para a próxima faixa: “Amis Reynaut”, que dando continuidade à circularidade eterna se desenvolve sobre uma base frágil, bastante sensível. A beleza formal acaba por ser o veículo da beleza filosófica, facto testemunhado pela melancólica morte bela que deixa viva a bela ideia.
Afirmadas que estão as premissas essenciais, surge, a passo de cavalaria, o ritual de sublimação com “Levis”. É um momento solene, mágico, preenchido por pormenores, onde o silêncio se torna tão importante como o som, num esforço de conunctio dos aspectos clivados. Com novos olhos é o momento de deleite com “Von Den Elben”, o single do álbum. Com um som tipicamente neo-clássico, lento, intenso, consistente, denso, quase grandioso, sente-se a vertigem do que se É. Aumentam, no final, os movimentos magicamente sincopados, enfatizando a humanidade conseguida. “Língua Mendax”, a faixa seguinte, é o oposto: segue rápida, escorreita, de aspecto rústico, com andamento bem definido, como que se projectando – saltando – tentando alcançar o que de mais divino existe, como se a intenção fosse a transformação, de facto, em algo divino. O caminho para tal talvez resida em “Falling Star”, música agelical, mágica, imaterial, que recupera a circularidade anterior, dando espaço para uma espécie de purificação, que passa, de uma forma quase pueril, pela simplicidade, pelo regresso à essência, replicando-a num ritual demasiadamente sensível.
The Whyle” é uma música repleta de cantinhos e pormenores, compondo uma complexa matriz sonora, onde as vocalizações surgem, ondulantes, como o vento, entrelaçando-se aqui e ali com uma segunda vocalização masculina, entrelaçando-se dando lugar a uma dança de aspecto celta. É o viver aqui-e-agora!
Gélida, inicia-se “Winter”, triste e melancólica como o Inverno. O espaço mantém-se circular, mas parece que o colorido existencial deu lugar à branca aridez da neve, deixando a dor por cuidar. Sobra o desejo de novas cores.
O momento é solene com “Altas Undas”, uma cantiga de amor. O som abre-se, uma vez mais, dando espaço às ondas do mar que se espraiam vagarosamente sobre a praia. Tal como o mar leva, também traz de volta? A dúvida cria dor, que se espelha nas vocalizações púrpuras desesperadas, acompanhadas de fortes percurssões. É-se nos outros e os outros são em nós.
292”, uma cantiga de Sta. Maria, surge alegre, reforçando a aliança divina. Recorrendo, mais uma vez a arranjos orientalizados, desenvolve-se uma espécie de dança não circular, mas que o pretende recriar. Sons populares enfatizam a divinização da existência. És alma incorporada: o triunvirato unido, a tridemensionalidade conseguida.
Finalmente, “Silver Swan”, um tema divinal, frágil e íntimo, em que o espaço sonoro relembra o quão bela pode ser a experiência, e que o divino reside na interpretação individual. Resta saber se a orientação é para o Cisne ou para o Ganso…

Afinal, o Mysterium inicial tornou-se Sapientia final. Saber não quer dizer que se (re)conheça, quer, antes, dizer que se integrou, e essa integração mais não é que um mistério, porque pessoal e intransmissível, sente-se ou cogita-se com a experiência pessoal, com os símbolos internos de cada um, que por mais relacionais que sejam, só fazem sentido a si próprios, e só estes permitem a transmutação em Ouro… talvez (de certeza) os símbolos neste QNTALV – SILVER SWAN sejam diferentes para Vós… esta é a minha interpretação, experimentem para saber a vossa!

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